Grupo Renault e a mobilidade elétrica em um cenário europeu de pressão
Em um momento em que o mercado automobilístico europeu vive incertezas e sente o peso de regras cada vez mais rígidas - com foco em cortar emissões de CO₂ -, o Grupo Renault volta a enfatizar a sua aposta na mobilidade elétrica, ao mesmo tempo em que admite que o caminho ainda traz obstáculos importantes.
Falando com jornalistas à margem da apresentação do Renault Emblème, Cléa Martinet, vice-presidente de sustentabilidade do Grupo Renault, foi direta ao avaliar as opções tecnológicas disponíveis: “Atualmente, não é realista apostar noutra solução para além dos elétricos”.
O «trilema» da sustentabilidade
Ainda assim, ela reconhece que a transição está longe de ser simples. Segundo Martinet, a estratégia passa por conciliar três metas exigentes - e muitas vezes em tensão entre si -: sustentabilidade, competitividade e resiliência.
“A competitividade e a sustentabilidade são uma combinação difícil a curto prazo”.
Cléa Martinet, vice-presidente de sustentabilidade do Grupo Renault
Ao comentar alternativas como os e-fuels (combustíveis sintéticos) e o hidrogênio, a executiva diz que, apesar do potencial, essas rotas não conseguem ganhar escala “tendo em conta os prazos e as condições definidas pelas metas europeias”. Para ela, no curto prazo, apenas a mobilidade elétrica oferece uma via realmente viável para avançar com a descarbonização.
Renault Emblème, hidrogênio (fuel cell) e a visão do Grupo Renault
Sobre o fato de o hidrogênio (fuel cell) ter sido adotado como base tecnológica do Renault Emblème, Martinet explica que a escolha serve como “prova de que com novas tecnologias podemos alcançar a descarbonização total”. Ao mesmo tempo, deixa claro que esse tipo de solução não “vai fazer parte da gama num futuro próximo”.
“O Emblème é um compromisso entre o que pode ser conduzido na estrada e a visão para 2035.”
Cléa Martinet, vice-presidente de sustentabilidade do Grupo Renault
União Europeia vs. Construtores automóveis
Durante a entrevista, Martinet apontou o que considera ser um descompasso entre as metas definidas pela União Europeia (UE) e a capacidade efetiva da indústria de acompanhá-las sem perder terreno competitivo. Nas palavras da vice-presidente: “Eu penso que a UE não pensou na consequência que as suas medidas iriam ter na competitividade da sua indústria. Hoje, se eu quisesse baixas emissões, mantendo-me ao mesmo tempo competitivo e acessível, compraria componentes chineses”.
Apesar da crítica, ela avalia que a UE está à frente de outras regiões no combate às emissões. “Nós somos o coração da luta contra as emissões”, conclui.
CAFE e a meta de 93,6 g/km de CO₂
Martinet também destacou a mudança recente no CAFE (Corporate Average Fuel Emissions): as 93,6 g/km de CO₂ passam a ser calculadas com base na média entre 2025 e 2027. Para ela, trata-se de um avanço nas conversas entre Bruxelas e o setor automotivo e um sinal de evolução no relacionamento: “é um bom exemplo de como o diálogo pode ser conduzido de forma construtiva”.
Métricas de CO₂ do Grupo Renault sem compensações
Além do debate regulatório, o Grupo Renault vem acompanhando a execução da sua estratégia ambiental por meio de indicadores objetivos. A montadora tinha como linha de base, em 2019, uma média de 47 toneladas de CO₂ por veículo. Já em 2024, esse número ficou em cerca de 42 toneladas.
Esse avanço, segundo Martinet, ocorreu sem uso de compensações de carbono. “Não compramos créditos. Só vamos compensar quando estivermos muito perto da descarbonização total, e isso significa 90% de redução real e apenas 10% de compensação no final”, afirma Cléa Martinet.
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