Habemus Wankel. Já se passaram mais de 10 anos desde que o Mazda RX-8 (2003-2012) saiu de cena - o último carro a trazer um motor Wankel. Depois de uma década de boatos, confirmações e desmentidos, o Wankel volta a aparecer na Mazda e no universo automotivo - só a Mazda para continuar apostando nesse tipo de ideia…
Só que o Wankel de volta não vai retornar acelerando enlouquecido em um novo esportivo - podem nos chamar de românticos, mas ainda sonhamos com um novo RX-7 -; com a virada profunda da indústria rumo à eletrificação total, o motor rotativo ganhou um novo «objetivo de vida» como… gerador para alimentar um motor elétrico em um híbrido plug-in.
Na prática, isso quer dizer que o Wankel que a Mazda batizou de 8C - onde é que já vimos essa designação? - não foi pensado para mover o veículo, ou seja, não fica mecanicamente conectado ao eixo de tração. O papel dele é exclusivamente produzir eletricidade para o motor elétrico de tração quando a bateria estiver a «zeros».
A estreia do 8C acontece no MX-30 e-Skyactiv R-EV, a versão híbrida plug-in do crossover da Mazda que, até agora, era conhecido apenas como 100% elétrico - existe também uma variante mild-hybrid, mas restrita ao mercado japonês.
Apenas um rotor
Como era de se esperar, o novo 8C se diferencia bastante dos Wankel anteriores - do lendário 13B-REW do RX-7 ao último Renesis (13B-MSP) do RX-8. Não apenas porque agora trabalha como gerador, mas também pelas soluções técnicas adotadas para reduzir os pontos fracos tradicionais do Wankel: consumo, confiabilidade e emissões.
Do lado dos benefícios - e uma das razões centrais para a Mazda ter escolhido um Wankel como gerador - está a relação potência/tamanho do 8C, superior à de um motor de pistões.
O novo 8C tem 830 cm3 e mede 840 mm de largura. Já o rotor em si tem somente 76 mm de largura e um raio de 120 mm. E vale reforçar: estamos falando de rotor no singular.
Diferentemente do Renesis, o 8C usa apenas um rotor, e não dois - algo que não acontecia desde o NSU Spider de 1963.
Ele também ficou mais leve. Com 97 kg, o 8C é 15 kg mais leve que o Renesis, graças ao emprego de alumínio nas carcaças laterais do motor. E, como sabemos, o “peso é o inimigo”, ainda mais quando a meta é «esticar» a autonomia em um veículo dominado pela máquina elétrica.
Mais econômico e confiável e com menos emissões
Para encarar as desvantagens clássicas do Wankel, a Mazda foi além e colocou no 8C um conjunto de recursos, vários deles inéditos nesse tipo de motor. Um exemplo direto: o 8C é o primeiro Wankel da história a adotar injeção direta.
A injeção direta, combinada com EGR (válvula de recirculação dos gases de escape) e com uma taxa de compressão de 11,9:1 - bem acima dos 10:1 do Renesis - deve viabilizar uma economia de combustível de até 25%, com a consequente queda nas emissões de CO2; já outros poluentes, como os óxidos de nitrogênio (NOx) prejudiciais à saúde humana, sempre foram muito baixos nesse tipo de motor.
Confiabilidade e durabilidade seguem sendo assuntos delicados quando o tema são motores Wankel. Quase sempre, a causa está nas vedações das pontas do rotor - as únicas partes móveis que tocam a superfície interna da carcaça do motor.
Quando uma dessas vedações começa a falhar na tarefa de manter a estanqueidade de duas das três câmaras onde ocorre a combustão (uma vedação sempre atende duas câmaras), formadas pelo movimento do rotor dentro da carcaça, o motor perde compressão e isso desencadeia vários problemas, como a perda de potência. Isso não significa que o motor “acabou”, mas o conserto costuma sair muito caro: é sempre necessário abrir o motor.
Para alcançar a confiabilidade e a durabilidade desejadas, a Mazda adotou no 8C vedações mais espessas, de 2,5 mm e, assim como fez na superfície interna da carcaça do motor, aplicou nelas um novo revestimento para diminuir atrito e desgaste (e, com isso, elevar a eficiência).
Não gira muito depressa
A durabilidade do 8C pode ser favorecida ainda pelo fato de ele atuar apenas como gerador. Ou seja, todo o funcionamento foi ajustado para operar no regime mais eficiente desse Wankel, o que significa uma faixa de rotação mais estreita.
Basta ver que os 830 cm3 do 8C rendem apenas 75 cv (55 kW) a 4700 rpm, e o torque é de 116 Nm a 4000 rpm, bem distante dos números do Renesis (também aspirado) que, dependendo da versão, atingia a potência máxima a 7000 rpm e 8200 rpm. A faixa ideal de operação do 8C fica delimitada entre 2450 rpm e 4500 rpm.
A Mazda afirma que o 8C consegue girar bem mais alto - caso deixe esse seu «papel» de gerador para ser aplicado como motor de tração em um veículo -, mas para a função de produzir energia e “recarregar” a bateria não há necessidade de girar mais rápido.
Trabalhar em rotações mais baixas também traz outro ganho. Além do equilíbrio e da baixa vibração que são características dos Wankel, o 8C tende a acrescentar um funcionamento mais silencioso.
Uma qualidade que deve ser bastante valorizada em um híbrido plug-in em série (apenas o motor elétrico traciona), como é o MX-30 e-Skyactiv R-EV que vai lançar esse 8C.
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