Pular para o conteúdo

Horário de verão não aumenta os passos, aponta estudo da Universidade Duke

Homem jovem com roupa esportiva caminhando na calçada enquanto usa celular em dia ensolarado.

Duas vezes por ano, os relógios mudam e a rotina dá uma tropeçada. Fala-se em fins de tarde mais claros, manhãs mais escuras e na promessa de passar mais tempo ao ar livre.

Muita gente assume que essa troca empurra as pessoas a se mexerem mais. Um novo estudo da Universidade Duke resolveu testar essa ideia de perto - e encontrou um quadro diferente.

Debate sobre a mudança de horário

O horário de verão reacende praticamente os mesmos argumentos todos os anos. Para alguns, ele favorece um estilo de vida mais ativo, porque a luz extra no fim do dia seria um convite para sair, caminhar e se movimentar.

Para outros, acontece o inverso: a mudança bagunça o sono, atrapalha o ritmo do dia e deixa a sensação de cansaço ou de estar “fora de sintonia”.

O problema é que essas opiniões costumam vir mais de experiências pessoais e percepções gerais do que de evidências robustas em grande escala.

Em vez de ficar no campo do “acho que”, os pesquisadores decidiram olhar para o comportamento real. No lugar de perguntar às pessoas o que elas acreditam fazer, eles analisaram padrões concretos de movimento.

A pergunta era direta: como o hábito de caminhar muda nos dias imediatamente antes e depois das trocas de horário?

Dados reais de dispositivos vestíveis

Para fugir de questionários, a equipe trabalhou com dados de contagem de passos. Eles acessaram o Programa de Pesquisa Todos Nós, uma iniciativa ampla apoiada pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), que reúne informações de saúde, inclusive dados vindos de dispositivos vestíveis.

Com isso, os pesquisadores obtiveram um registro objetivo de quanto as pessoas se movimentam a cada dia.

Avaliar políticas de horário não é algo simples. Não dá para colocar pessoas em laboratório e “atribuir” sistemas de tempo diferentes para cada grupo. Só que a geografia ofereceu um cenário útil.

O Arizona não adota o horário de verão. Já estados próximos, como Colorado, Novo México e Utah, adotam. Como essas regiões têm clima e modos de vida semelhantes, isso permitiu comparar comportamentos sob sistemas de horário distintos.

“Escolher esses estados nos permitiu montar algo mais próximo de um desenho de experimento natural”, disse Hayoung Jeong, doutoranda no laboratório de Dunn e coautora principal do artigo.

“Em vez de atribuir aleatoriamente as pessoas ao estudo, conseguimos enquadrar essa questão de um jeito estatisticamente mais sólido.”

O total de passos não muda

Os pesquisadores analisaram dados de contagem de passos reunidos entre o outono de 2021 e a primavera de 2023.

Eles observaram com atenção os sete dias que antecediam cada mudança de horário e os sete dias imediatamente seguintes, para captar possíveis alterações de curto prazo.

O resultado foi bem claro: o total de passos diários, no geral, ficou praticamente igual durante essas transições.

As pessoas não passaram a caminhar de forma perceptível quando o relógio adiantou na primavera, nem reduziram a atividade quando o horário voltou no outono.

No conjunto, o nível de atividade física permaneceu estável, sugerindo que a mudança no relógio, por si só, teve pouca influência sobre o quanto as pessoas se movimentaram diariamente.

O efeito aparece no horário dos passos

Embora a quantidade total de passos tenha se mantido, o momento em que eles aconteciam mudou. Em outras palavras, as pessoas reajustaram quando caminhavam.

Uma parte antecipou a atividade para mais cedo. Outra empurrou a caminhada para o fim do dia. O volume de movimento permaneceu, mas o encaixe dele ao longo do dia foi reorganizado.

“Essa é uma informação que os dispositivos vestíveis entregam e que nada mais consegue, a menos que você esteja observando as pessoas explicitamente”, disse Katta, que também é coautor principal do artigo.

“A pesquisa mostrou que dezenas ou centenas de passos extras por dia podem afetar a sua saúde, então como o horário de verão mexe com esses passos é importante para muita gente.”

Nem todos conseguem ajustar a rotina

A capacidade de mudar hábitos não é a mesma para todos. Algumas pessoas conseguem deslocar horários com facilidade; outras têm pouca margem para isso.

O estudo identificou maior adaptação entre pessoas mais jovens. Grupos de renda mais alta também ajustaram mais. E quem mora em áreas mais caminháveis teve mais flexibilidade.

Já quem tem jornada de trabalho rígida ou pouco acesso a locais seguros para caminhar contou com menos alternativas. Para esse grupo, a troca de horário pode diminuir oportunidades de se manter ativo.

Essa diferença é relevante: o peso das mudanças de horário não se distribui de forma uniforme.

Enquanto alguns se adaptam sem grandes impactos, outros perdem uma parte do seu ritmo diário. Isso cria uma distância entre como grupos diferentes vivem a mesma política.

Horário de verão não acrescenta passos

A ideia de que o horário de verão aumenta a atividade física não encontra suporte forte neste estudo. Ao mesmo tempo, também aparece pouca evidência de que ele reduza a atividade no total.

“No geral, mudar o horário não parece ser o benefício de saúde pública que alguns imaginam, pelo menos em termos de níveis de atividade”, disse Jessilyn Dunn, professora associada de engenharia biomédica na Duke.

“Mas provavelmente deveríamos olhar com mais cuidado para saber se essas mudanças de horário estão incomodando alguns grupos e não outros.”

Talvez seja hora de mudar o foco. Em vez de perguntar se o horário de verão aumenta a atividade, pode ser mais útil entender quem é mais afetado.

As trocas no relógio não criam passos a mais. Elas apenas redistribuem os passos. A questão central está em quem consegue se adaptar - e em quem não consegue.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário