A Asus, há anos uma marca de nicho querida por usuários avançados e gamers mobile, confirmou que vai encerrar de vez a sua operação de smartphones e direcionar esforço - e investimento - para a inteligência artificial (IA).
De celulares cult a um ponto final
No papel, a Asus nunca foi uma potência global em smartphones. Segundo números divulgados pelo Tech in Asia, a empresa chegou a ter cerca de 2.8% do mercado mundial. Ainda assim, a relevância da marca ia muito além do que essa fatia sugere.
A família Zenfone ganhou fama por oferecer um Android “limpo”, desempenho forte e topos de linha surpreendentemente compactos numa fase em que as marcas grandes só aumentavam o tamanho dos aparelhos. Já a linha ROG Phone, pensada para jogos, levou especificações e soluções térmicas ao limite - e frequentemente virou referência quando o assunto era força bruta.
A Asus interrompeu oficialmente todo o desenvolvimento futuro de Zenfone e ROG Phone, encerrando seu capítulo no mobile.
Esse capítulo terminou em uma reunião interna, na qual o presidente da Asus, Jonney Shih, informou aos funcionários que não haveria novos smartphones. A decisão confirma o que parte do setor já suspeitava desde que, discretamente, os planos para uma linha em 2026 deixaram de existir.
Por que a Asus está saindo do mercado de celulares
O mercado de smartphones ficou implacável e com margens apertadas, principalmente para marcas fora do grupo do topo. Os custos de marketing são gigantescos, os preços de componentes oscilam e é cada vez mais difícil se diferenciar.
Para a Asus, os celulares já funcionavam, na prática, como um projeto secundário perto das forças históricas da empresa em PCs, placas-mãe e notebooks gamer. Ao que tudo indica, a companhia concluiu que faz menos sentido colocar mais dinheiro num segmento lotado e de crescimento lento do que surfar a onda da IA.
A Asus está realocando recursos de celulares para hardware de IA: servidores, notebooks, robótica e dispositivos conectados.
A nova estratégia se apoia em várias frentes:
- Servidores otimizados para IA voltados a centros de dados e provedores de nuvem
- Notebooks e PCs centrados em IA, incluindo os chamados “PCs com IA” apresentados na CES, em Las Vegas
- Produtos experimentais, como óculos inteligentes e robôs para uso do consumidor
- Camadas de software que conectem o hardware da Asus a fluxos de trabalho de IA
Na prática, a ambição é virar a marca que vende a infraestrutura e os dispositivos que rodam modelos de IA - e não o aparelho no seu bolso executando, por exemplo, um filtro de câmera com IA.
A era do celular gamer chega ao fim
ROG Phone: um excesso cada vez mais raro
A linha ROG Phone foi uma das últimas propostas realmente especializadas em smartphones. Enquanto concorrentes tentavam agradar a todos, a Asus apostou integralmente em jogos: baterias enormes, telas OLED com alta taxa de atualização, resfriamento avançado, gatilhos laterais e docks que transformavam o telefone em um tipo de “quase console”.
A Asus também testou acessórios robustos: ventoinhas de encaixe, docks com segunda tela, bases de mesa para teclado e mouse. Nem tudo era prático, mas o conjunto deixava o ROG Phone imediatamente identificável - e passava ao gamer mobile a sensação de que alguém estava projetando exatamente para ele.
Agora, essa linha para por completo. Não haverá ROG Phone 9, nem “renascimento” do Zenfone. A empresa entrega esse nicho para outros - a menos que uma liderança futura resolva fazer outra guinada.
Fãs do Zenfone perdem um raro topo de linha compacto
O Zenfone se destacava por um motivo diferente. Nos últimos anos, foi um dos pouquíssimos flagships Android que continuaram relativamente pequenos e, ainda assim, traziam câmeras e processadores de alto nível. Para quem não queria um “tijolo” gigante no bolso, a Asus oferecia um diferencial claro.
Com o fechamento da divisão mobile, esse espaço volta a encolher. Quem procura um Android premium menor passa a ter menos opções - em geral, concentradas na Samsung ou em modelos de nicho, esporádicos, de marcas chinesas.
Apostas em IA, preços mais altos
A Asus não é a única correndo para a IA. Fabricantes de chips, provedores de nuvem, marcas de PC e empresas de software disputam um pedaço do mesmo mercado. GPUs, memória de alta largura de banda e RAM avançada estão sob forte demanda. E essa demanda tem um efeito colateral: preço.
O boom da IA está elevando o custo de memória e componentes, o que se reflete em preços mais altos para notebooks e outros dispositivos.
A própria Asus mostrou, na CES em Las Vegas, novos PCs voltados para IA com etiquetas claramente mais altas do que as de modelos equivalentes de anos anteriores. Uma parte disso vem de chips mais potentes e de unidades de processamento neural no próprio dispositivo, mas outra parte é simplesmente a lei de oferta e demanda.
| Área | Antes da mudança | Depois da mudança |
|---|---|---|
| Smartphones | Zenfone e ROG Phone, nicho com base fiel | Sem novos modelos, apenas suporte de software contínuo |
| PCs e notebooks | Máquinas para jogos e criação | PCs rotulados com IA, com NPUs e preços mais altos |
| Centro de dados | Servidores e componentes padrão | Servidores otimizados para IA e plataformas prontas para aceleradores |
| Equipamentos experimentais | Acessórios gamer e docks | Óculos inteligentes, robótica e dispositivos de IA conectados |
O que donos de celulares Asus devem esperar
Se você usa hoje um Zenfone ou um ROG Phone, a notícia pode soar preocupante, mas não significa que seu aparelho foi “abandonado” de uma hora para outra.
A Asus sinalizou que o suporte aos smartphones existentes vai continuar. Isso inclui atualizações de software e correções de segurança dentro do ciclo de vida usual. A mudança atinge a produção futura - não os compromissos atuais de pós-venda.
Ainda assim, alguns impactos de longo prazo são inevitáveis. Acessórios tendem a ficar mais difíceis de encontrar, sobretudo os complementos específicos do ROG Phone. O suporte de ROMs de terceiros pode continuar forte entre entusiastas, mas as atualizações oficiais de recursos naturalmente diminuem conforme os modelos envelhecem.
O que “apostar tudo em IA” realmente quer dizer
IA pode parecer um termo abstrato; por isso, ajuda separar o que a Asus provavelmente pretende vender nos próximos anos.
PCs com IA e inteligência no próprio dispositivo
Um “PC com IA” costuma ser um notebook ou desktop com uma unidade de processamento neural (NPU) dedicada. Esse chip executa tarefas como desfoque de fundo em tempo real, isolamento de voz, tradução e alguns recursos generativos localmente - sem enviar todos os dados para um servidor na nuvem.
Para a Asus, isso cria novas propostas de produto: notebooks mais finos que ainda aguentam cargas de trabalho de IA, máquinas gamer que fazem streaming com melhorias no próprio dispositivo, ou notebooks corporativos capazes de rodar modelos sensíveis offline por motivos de privacidade.
Servidores, dispositivos inteligentes e robôs
Na camada de infraestrutura, a Asus pode fornecer placas-mãe e servidores completos para empresas que implantam grandes modelos de linguagem e outras cargas de IA exigentes. Esses clientes frequentemente aceitam pagar muito mais por máquina do que um consumidor pagaria por um único telefone - o que ajuda a explicar a virada estratégica.
A empresa também fala em óculos inteligentes e robótica. Na prática, isso pode se traduzir em headsets de realidade aumentada para trabalhadores industriais, robôs de apoio no varejo ou máquinas de armazém guiadas por sistemas de visão computacional com IA. Nada disso é um sucesso garantido, mas fica mais próximo do “DNA” de hardware da Asus do que disputar espaço de prateleira com Androids intermediários.
O que isso muda no cenário de smartphones
A saída da Asus não altera gráficos globais de participação de mercado como seria, por exemplo, uma saída da Samsung. Porém, ela muda a “textura” do mercado de maneira sutil.
Menos marcas passam a produzir celulares “para entusiastas” focados exclusivamente em jogos. Nesse nicho, a disputa tende a migrar para empresas como a RedMagic (da Nubia), para experimentos Legion da Lenovo e para variantes gamer de marcas mais tradicionais. Algumas podem tentar atrair a base fiel do ROG Phone copiando gatilhos, resfriamento e acessórios.
A decisão também manda um recado: até uma marca tecnicamente competente e bem vista pode considerar smartphones um negócio duro demais para justificar. Esse sinal deve ecoar entre OEMs menores que já sofrem na faixa mais baixa do mercado.
Como consumidores podem se adaptar à guinada para IA
Para o usuário comum, a troca de foco - de celulares para hardware de IA - traz ganhos e concessões. Você passa a ter notebooks que executam mais tarefas localmente, com potencial de mais privacidade e menor dependência de conexão constante. Ao mesmo tempo, os preços tendem a subir conforme componentes “grau IA” viram padrão.
Se a sua prioridade é custo, uma atitude prática é observar o quanto você realmente usa recursos de IA. Um notebook intermediário sem a narrativa forte de “PC com IA” pode atender tão bem quanto um modelo chamativo e, ainda assim, sair mais barato. Já no lado dos smartphones, fica ainda mais importante escolher marcas com políticas claras de atualização de longo prazo - porque players de nicho podem sair do jogo, como a Asus acabou de fazer.
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