A maioria das pessoas sabe esse número de cor: fazer 150 minutos de exercício por semana e caminhar em ritmo acelerado por 30 minutos por dia, cinco vezes na semana.
As campanhas de saúde repetem tanto essa meta que ela quase soa como uma regra universal da biologia.
Só que um grande estudo recente publicado na Revista Britânica de Medicina do Esporte indica que o alvo famoso pode explicar apenas parte do que está em jogo. A recomendação continua sendo relevante.
Ela segue associada a menor risco cardiovascular. Ainda assim, os pesquisadores defendem que muita gente pode estar encarando o mínimo como ponto de chegada, quando na verdade ele é apenas o começo.
Acompanhando o movimento real
O trabalho usou dados do Biobanco do Reino Unido, um dos maiores projetos de pesquisa em saúde do mundo.
Os cientistas avaliaram 17,088 participantes que utilizaram acelerómetros no pulso durante uma semana inteira e também fizeram um teste de aptidão em bicicleta.
Essa dupla de medidas deu ao estudo uma base incomum de confiabilidade. Em vez de depender de estimativas relatadas pelas pessoas sobre quanto se exercitavam, os autores conseguiram observar padrões de movimento de forma objetiva por meio de dispositivos vestíveis.
Em seguida, a equipa relacionou esses registos com estimativas de VO₂max, considerado o padrão-ouro para medir a aptidão cardiorrespiratória.
Com isso, o método ajudou a separar duas ideias que costumam ser tratadas como se fossem a mesma coisa: atividade física e aptidão física.
Exercício é o comportamento. Aptidão é a resposta do corpo.
150 minutos oferecem proteção modesta
Em campanhas de saúde pública, é comum ligar o exercício regular a reduções de 20 a 30 por cento no risco cardiovascular. Nesta pesquisa, o efeito encontrado foi menor.
De acordo com o estudo, atingir os 150 minutos semanais de atividade moderada a vigorosa reduziu o risco de doença cardiovascular em cerca de 8 a 9 por cento.
Isso não significa que estudos anteriores estivessem errados. A proposta aqui foi tentar identificar, com mais precisão, o efeito direto da própria atividade.
Na análise, os autores controlaram os níveis de aptidão, o que permitiu observar o que o exercício acrescenta por si só, independentemente das adaptações fisiológicas de longo prazo.
Assim, a meta dos 150 minutos continua a ajudar, mas o impacto direto pode ser mais moderado do que muita gente imagina.
Benefícios maiores exigem mais exercício
Depois, os pesquisadores investigaram quanto de atividade seria necessário para obter quedas mais expressivas no risco cardiovascular.
Para chegar a aproximadamente 20 por cento de redução no risco de doença cardiovascular, os participantes precisaram de algo em torno de 340 a 370 minutos de atividade por semana.
Para alcançar 30 por cento de redução, foi necessário algo entre 560 e 610 minutos semanais - o que equivale a cerca de 90 minutos de movimento moderado a vigoroso por dia.
Apenas cerca de 11.6 por cento dos participantes realmente atingiram esse patamar. Os números colocam em xeque um equívoco comum sobre as diretrizes de exercício.
As recomendações de saúde pública são pensadas para estabelecer mínimos que grandes populações conseguem atingir de forma realista. Elas não são, necessariamente, o nível associado à máxima proteção.
Menor aptidão exige mais esforço
O estudo também mostrou que o nível de aptidão altera a quantidade de exercício necessária.
Participantes com menor aptidão cardiorrespiratória precisaram de um pouco mais de atividade para obter o mesmo benefício relativo observado em pessoas mais aptas.
Quem tinha baixa aptidão precisou de cerca de 370 minutos por semana para chegar a uma redução de 20 por cento, enquanto indivíduos com aptidão mais alta alcançaram esse ponto mais perto de 340 minutos.
A diferença pode parecer pequena, mas destaca um problema importante de saúde pública.
Pessoas com menor aptidão frequentemente concentram o maior risco cardiovascular. Ao mesmo tempo, elas podem precisar de atividade mais sustentada para conquistar a mesma proteção.
“Esta constatação evidencia o desafio mais acentuado enfrentado por populações descondicionadas”, observaram os pesquisadores.
A aptidão protege para além do volume de movimento
Uma das descobertas mais interessantes envolveu o que os autores chamaram de “aptidão residual”.
Os cientistas estimaram quanta aptidão o nível de atividade de cada pessoa deveria prever. Depois, analisaram a aptidão extra que alguns indivíduos tinham além do que os seus padrões de movimento, por si só, conseguiriam explicar.
Esse excedente continuou a fazer diferença. Cada unidade adicional de aptidão não explicada esteve associada a menor risco cardiovascular.
Um excedente de 5 mL/kg/min no VO₂max correspondeu a cerca de 10 por cento de redução no risco.
O resultado sugere que a aptidão tem um efeito protetor próprio, além do simples volume de atividade.
Genes moldam a saúde do coração
Para verificar se esses padrões se aproximavam de uma relação de causa e efeito, os autores aplicaram uma técnica chamada randomização mendeliana.
A análise reforçou o papel protetor de maior aptidão cardiorrespiratória, sobretudo contra insuficiência cardíaca.
Já os sinais genéticos relacionados à própria atividade física foram mais fracos e menos consistentes.
Segundo os pesquisadores, isso pode refletir como é difícil capturar, apenas com genética, a complexidade dos padrões de movimento do dia a dia.
Médicos podem definir metas personalizadas
O estudo não se posiciona contra a diretriz dos 150 minutos. Os autores reiteram que ela continua a ser uma recomendação importante de saúde pública, especialmente porque muitos adultos ainda não atingem nem esse mínimo.
Mas os achados podem mudar a forma como médicos conversam com pacientes que procuram uma proteção mais forte.
Em vez de orientações genéricas para “exercitar-se mais”, profissionais podem, no futuro, trabalhar com metas personalizadas a partir da aptidão atual e dos objetivos de saúde de cada pessoa.
Dispositivos vestíveis podem facilitar isso. Muitos relógios inteligentes já monitorizam frequência cardíaca, movimento e níveis estimados de aptidão.
Um caminho melhor daqui para a frente
A pesquisa traz uma visão mais realista sobre as diretrizes de exercício.
A recomendação de 150 minutos nunca teve a intenção de representar proteção máxima.
Ela sinaliza o ponto a partir do qual benefícios mensuráveis começam a aparecer, enquanto volumes mais altos de atividade seguem a oferecer ganhos cardiovasculares maiores.
Para quem pode aumentar a atividade com segurança, o estudo sugere que há muito mais a conquistar. Para quem luta para atingir o mínimo, a mensagem continua positiva: pequenas melhorias ainda contam.
“Diretrizes futuras podem precisar diferenciar entre o volume mínimo de exercício moderado a vigoroso necessário para uma margem básica de segurança e os volumes substancialmente mais altos necessários para uma redução ótima do risco cardiovascular”, anotaram os pesquisadores.
O número famoso ainda vale. Só que talvez já não conte a história inteira.
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