Visual de ônibus espacial, acabamento caprichadíssimo e 517 cv de força sob o capô: o Polestar 3 chega pesado para tentar ganhar espaço no mercado francês. Só que as falhas de ergonomia e a sede por eletricidade podem ser difíceis de engolir em um SUV que encosta nos 110 000 €.
As enormes rodas em “cruz” de 56 cm (equivalentes a 22 polegadas), combinadas com um ar de nave espacial, chamam atenção instantaneamente. Capô longo demais, silhueta robusta e traseira bem inclinada: mesmo com uma cor pálida de geladeira, o Polestar 3 não passa despercebido. Ainda bem, porque a marca sino-sueca que acabou de desembarcar na França segue bem discreta. Para bater de frente com os gigantes alemães, vai precisar jogar com inteligência.
O anti-SUV: um visual de nave espacial que quebra padrões
Para isso, os designers claramente foram além do óbvio. O teto baixo (1,61 m), somado à dianteira mergulhada, deixa o carro mais próximo da elegância de um sedã do que do típico SUV alto. Atrás, a queda é ainda mais marcada, com um aerofólio que mal encosta na parte de cima do meu peito. Com bom comprimento (4,90 m), o Polestar 3 ainda apoia a carroceria em pneus grandes e de perfil baixo, prontos para grudar no asfalto. Assim, ele escapa daquele efeito “tijolão”.
Ainda bem, porque a cabine, por outro lado, não surpreende no quesito originalidade. A receita parece simples: pegue um interior de Volvo, alivie alguns elementos aqui e ali, troque o emblema no volante e pronto - nasce um cockpit de Polestar saindo do forno. O resultado é limpo, discreto e leve. Quase tudo foi concentrado em uma central multimídia enorme de 36,8 cm (14,5 polegadas), posicionada na vertical.
A armadilha do “só no toque”: quando a ergonomia vira um desafio no Polestar 3
Para a ergonomia do Polestar 3, isso é péssimo. Ar-condicionado, assistentes de condução, ajustes diversos, porta-luvas, luzes… praticamente tudo passa por essa tela - e ela ainda é muito sensível a marcas de dedo. Motivo suficiente para muita gente reclamar (eu incluso). Por sorte, o sistema operacional baseado em Android Automotive é dos melhores. Gráficos, fluidez e resposta são exemplares. E o planejador de rotas funciona sem falhas.
Já limitar o comando dos quatro vidros a apenas dois botões para economizar alguns trocados é difícil de entender. No console de teto, a função de desembaçador fica ao lado do pisca-alerta e do botão de chamada de emergência. Mais uma escolha curiosa… Quanto à alavanca de seta, ela volta sempre à posição inicial depois de acionada, exigindo um tempo de adaptação.
Couro Nappa, plásticos macios e madeira texturizada: um interior que sobe o nível
Em compensação, a qualidade percebida é um ponto alto. O Polestar 3 não economiza: o acabamento é simplesmente excelente. Há muitos encaixes bem feitos e sobra plástico emborrachado. Tudo parece bem montado, olhando para cima ou para baixo, na frente ou atrás. Os bancos de couro Nappa perfurado - supostamente alinhados ao bem-estar animal - também impressionam. E ainda bem, considerando o preço (6 000 €).
Até o revestimento interno da tampa do porta-malas é forrado, algo bem raro. A faixa de madeira texturizada que atravessa o painel também não decepciona. O volante, apesar de não ser o mais bonito com seus botões “invisíveis”, é agradável nas mãos. O aro não é fino demais nem grosso em excesso. E, além disso, ele ajuda na condução - voltaremos a esse ponto já já. Essa seriedade toda lembra o que vimos no Polestar 4.
Pilot Assist: o ponto fraco nas ajudas ao motorista do Polestar 3
Esse cuidado contrasta com alguns equipamentos, como o painel de instrumentos montado na coluna de direção. Essa tela “tamanho chocolate” oferece só três modos de visualização. No head-up display, é ainda pior: não há qualquer personalização. Simples demais, o sistema exibe apenas o essencial, como velocidade e navegação com setas bem pequenas. A condução semiautônoma também pode ser mostrada no para-brisa.
O problema é que o conjunto, chamado Pilot Assist, deixa a desejar em precisão. Às vezes reage de forma brusca, costuma demorar nas trocas de faixa e, em geral, mantém a trajetória de um jeito inseguro - até em linha reta. O carro chega a avisar que você está saindo da faixa quando, na prática, é ele mesmo que não consegue seguir reto! No fim, a sensação é mais de ser levado por um motorista novato, travado e tenso, do que por um verdadeiro chauffeur.
2,6 toneladas de agilidade: o pequeno milagre da suspensão a ar
Por isso, assumir o volante acaba sendo menos cansativo… e mais divertido. É verdade que, com mais de 2 600 kg a seco, a nossa versão Dual Motor parece um caminhão. Só que o Pack Performance eleva a potência para 517 cv e o torque para 910 Nm, dois números de respeito. As acelerações surpreendem (0 a 100 km/h em 4,7 s) e, ao selecionar o ajuste mais firme da suspensão pneumática, o excesso de peso “some” na prática.
Com rolagem de carroceria bem controlada, o carro entrega uma agilidade inesperada. Essa “geladeira” simpática contorna curvas sem drama graças à direção consistente e à distribuição milimétrica de torque em cada roda. A cada saída de curva, as retomadas vêm fortes, enquanto a frenagem com pinças Brembo passa confiança. Em ritmo mais forte, o Polestar 3 se comporta como um jovem inquieto - e faz isso antecipando bem o próximo movimento.
Vida a bordo: espaço e silêncio para os passageiros, mas porta-malas limitado
Quando é hora de acalmar, o sino-sueco também sabe ser civilizado. Depois de acelerar sem pena e judiar dos pneus sob chuva pesada, basta colocar a suspensão no modo mais macio. Dá para perceber maior curso e amortecedores mais soltos. É confortável sem ficar exageradamente “fofo”. E a acústica agrada: o isolamento é bem competente graças aos vidros laminados em todo o carro, que filtram com eficiência os ruídos indesejados.
Com bom desenho, os bancos também ajudam a reduzir o cansaço graças aos muitos ajustes. Dá para inclinar e alongar a base, inflar os apoios laterais e ainda ativar massagem com cinco programas diferentes. Não chega a ser um spa - mas quase. Em espaço, é generoso para cabeça e joelhos. Ainda assim, o lugar central atrás segue tão pouco acolhedor quanto nos rivais. Os porta-malas dianteiro (32 l) e traseiro (484 l) são modestos para o tamanho do carro.
Autonomia e recarga: os limites da plataforma 400V do Polestar 3
O Polestar 3 até supera os concorrentes em consumo - mas pelo motivo errado, porque os kWh desaparecem da bateria numa velocidade impressionante. Na estrada, é impossível ficar abaixo de 30 kWh/100 km. É muito alto, mesmo considerando os pneus de inverno do nosso carro. Apesar do acumulador enorme de 111 kWh, a autonomia não corresponde ao que se espera.
Em via rápida, 350 km mal entram na conta, o que força paradas frequentes para recarregar. E o SUV não compensa isso na tomada: por usar plataforma 400V, ele aceita no máximo 250 kW em corrente contínua (DC). Na prática, nunca passamos de 160 kW, mesmo chegando com a bateria quente e carga baixa (sempre entre 5 e 10 %). Frustrante… para dizer o mínimo. Em todo caso, o Polestar 3 deve adotar em breve uma arquitetura 800V, que - esperamos - melhore a potência de recarga.
Mais de 110 000 € na mesa: o preço de um premium “tudo incluído”
Na cidade, é preciso atenção extra, porque o Polestar 3 pode pregar peças em quem não tem experiência. A ponta do capô imponente não aparece no campo de visão, e os 1,97 m de largura não perdoam em ruas estreitas. Seria uma pena arranhar os retrovisores ou “morder” as rodas caríssimas - ainda mais porque o eixo traseiro direcional não existe aqui. Recomendamos fortemente a câmera 360° com função 3D, opcional, para evitar prejuízos.
Ainda bem que a lista de equipamentos é farta: bancos ventilados, fechamento assistido das portas, som Bowers & Wilkins de 1 600 W, faróis matriciais, suspensão a ar, teto panorâmico, chave digital… nada exatamente revolucionário, mas o essencial aparece pelo valor cobrado: o nosso carro passa de 110 000 € ao incluir todas essas “guloseimas”. É muito dinheiro, claro, porém alinhado ao que os rivais pedem.
Nossa opinião sobre o novo Polestar 3 elétrico
O visual sem concessões é, de longe, o maior destaque do Polestar 3. Também fica claro o esforço no interior, com uma qualidade de acabamento que domina a comparação. Conforto e comportamento dinâmico, normalmente difíceis de conciliar, foram bem combinados pelo sino-sueco. Por outro lado, há concessões grandes em ergonomia, consumo e recarga. Em um carro que se coloca como premium, isso impede a nota “muito bem”.
Polestar 3 Long Range Dual Motor Performance Pack
92 300 €
Veredito
7.0/10
Gostamos
- O estilo original
- O cuidado com a cabine
- O conforto refinado
- O comportamento dinâmico convincente
Gostamos menos
- A ergonomia complicada
- O consumo alto demais
- A recarga fraca
- Nem todos os equipamentos estão bem acertados
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