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Groenlândia, Donald Trump e a volta da Doutrina Monroe: guia para entender o movimento dos Estados Unidos

Mulher com jaqueta vermelha usando tablet em penhasco com mapa e capacete amarelo, navio e montanhas ao fundo.

Faltando menos de um mês para terminar este 2026, a política externa dos Estados Unidos já ofereceu sinais contundentes - e mais do que suficientes - de que pretende agir de modo a recolocar no centro do debate a conhecida Doutrina Monroe: um Hemisfério Ocidental sob influência de Washington, pensado como garantia de segurança diante do surgimento de novos competidores geopolíticos. O exemplo mais recente foi a operação Absolute Resolve, conduzida dias atrás na Venezuela, com uma presença impressionante de meios navais e aéreos que criou as condições para que grupos de operações especiais capturassem, com execução impecável, o ditador Nicolás Maduro e o transferissem para tribunais norte-americanos - mesmo existindo diferentes argumentos de direito internacional que, ao menos no papel, enfraqueceriam a decisão.

Deixando de lado julgamentos morais e preferências políticas, o que se percebe é uma mudança de ênfase quanto ao peso que essas normas terão: menos deferência a elas e mais adesão a premissas típicas da Escola Realista das relações internacionais. O foco passa a ser a projeção do interesse nacional como eixo central, combinando força militar e poder económico para atingir objetivos - dois domínios em que os Estados Unidos ocupam uma posição privilegiada.

Nesse contexto, Groenlândia parece ser o próximo passo imaginado pela administração republicana liderada pelo presidente Donald Trump. Trata-se de uma vasta ilha do Ártico, pouco povoada e sob a órbita da Dinamarca - em princípio, um aliado europeu confiável para os EUA -, mas que se destaca pela localização geográfica estratégica para controlar o tráfego marítimo. Soma-se a isso o potencial para atividades de extração de recursos naturais relevantes, altamente cobiçados por Washington.

Ainda assim, em meio à avalanche de informações gerada por acusações recíprocas entre o presidente citado e suas contrapartes europeias - com as quais mantém relações tensas -, as questões de fundo por trás do cenário frequentemente se perdem. A seguir, proponho ao leitor um guia prático e breve para enquadrar esses pontos, tanto para informar quem não está familiarizado com o tema quanto para estimular o debate entre aqueles que já acompanham o assunto.

A ilha a partir do seu valor geográfico e estratégico

Como muitos sabem, a Groenlândia é considerada a maior ilha do mundo, com mais de 2,1 milhões de km² de área. Ela ocupa o Atlântico Norte, separando o continente americano do europeu; em seu ponto mais próximo, fica a cerca de 32 km do Canadá e, adotando o mesmo critério, a aproximadamente 302 km da Islândia.

Isso não é um detalhe: essa posição faz da Groenlândia um dos três elos que formam a chamada Brecha GIUK, completada pela própria Islândia e pelo Reino Unido. Trata-se de um gargalo essencial para as rotas marítimas da região do ponto de vista militar - e não faltam exemplos, durante as duas Guerras Mundiais, que mostram sua relevância como ligação entre nações aliadas que trocavam suprimentos.

Na Guerra Fria, a ilha também cumpriu papel central para desdobramentos avançados de Washington (mediante acordos), com a missão de vigiar possíveis incursões submarinas da Marinha Soviética ou eventuais lançamentos de mísseis balísticos, oferecendo alertas precoces para as defesas no continente. Assim, consolidou-se como uma barreira estratégica de contenção de enorme importância. Com o aumento da atividade naval russa na região e o receio de que a China siga por caminho semelhante, esse papel volta a ganhar destaque nos dias atuais.

Olhando para o futuro e considerando os efeitos do aquecimento global sobre o gelo do Ártico, a área também tende a tornar-se um ponto de controlo decisivo para a Passagem do Noroeste (NWP) e a Rota Marítima do Norte (NSR). Segundo consenso entre analistas, são rotas que obrigarão a repensar o comércio marítimo como é entendido hoje - e, por consequência, as estruturas militares voltadas a dar segurança aos navios que por elas transitarem.

No tema recursos, a Groenlândia é igualmente um polo importante para a exploração de minerais críticos, cuja posse hoje é uma das principais vantagens da China enquanto rival geopolítico dos EUA. De acordo com relatórios anteriores da Agência Internacional de Energia (AIE), publicados em 2023, isso se expressa no controlo de 25 matérias-primas essenciais dentro de uma lista de 34 ligadas à transição energética e à indústria eletrónica, entre outros exemplos. Pela mesma fonte, fala-se em mais de 36 milhões de toneladas de alumínio, cobre e outros tipos de terras raras. É importante notar, porém, que a atividade mineira atualmente só pode ocorrer durante seis meses por ano, em função das condições climáticas da ilha.

Dinamarca e a sua presença na ilha

Nas últimas décadas, Copenhague tratou a Groenlândia como um território que não está no centro das prioridades, habitado por cerca de 57.000 pessoas, segundo os dados mais recentes disponíveis. Como já mencionado, trata-se de um território integrante do Reino da Dinamarca desde a promulgação da Constituição de 1953, ligado ao país por uma relação chamada Rigsfællesskabet (traduzível como Comunidade da Coroa). Evidentemente, existem vínculos ainda mais antigos, que remontam a séculos, com a chegada de navegadores sobretudo noruegueses e dinamarqueses - entre os nomes mais conhecidos, Erik, o Vermelho.

Ao mesmo tempo, é um território com autonomia desde 1979, tendo acumulado desde então um conjunto crescente de competências de autogoverno local. Isso inclui, entre outras coisas, a possibilidade de se posicionar contra as intenções de Trump de incorporá-los aos Estados Unidos por meio de compra do território - ou pela força. Já a proteção militar, por sua vez, depende principalmente das Forças Armadas dinamarquesas e de seus aliados no âmbito da OTAN.

Nessa linha, vale registrar que a Dinamarca mantém tropas na ilha, mas de forma limitada e, na visão de Washington, insuficiente para lidar com ameaças de grande escala. Um sinal disso é que a principal força empregada na função é a chamada Patrulha Sirius, unidade especial que ainda utiliza trenós puxados por cães como meio de transporte. A alternativa - ironicamente - é uma base dos próprios EUA (Pituffik), que abriga cerca de uma centena de soldados e poderia até funcionar como facilitadora de qualquer tentativa militar de Washington de tomar a ilha.

Cientes desse quadro, autoridades em Copenhague anunciaram em janeiro de 2025 a previsão de obras no aeroporto de Kangerlussuaq, antiga base militar norte-americana onde se espera poder posicionar um pequeno número de caças F-35 da Real Força Aérea Dinamarquesa. Além disso, haveria apenas um avião de vigilância do tipo Challenger e quatro antigos navios-patrulha que não configuram uma dissuasão real, mesmo que as tropas dinamarquesas optem por resistir de forma honrosa.

Alguns cenários possíveis daqui para a frente

Feita essa exposição breve sobre por que a presidência de Trump desejaria obter a Groenlândia, vale perguntar: olhando adiante, quais possibilidades a Casa Branca avaliaria hoje? No entendimento humilde de quem escreve, há três caminhos plausíveis, cada um com suas forças e limites - envolvendo dimensões militares, financeiras e políticas.

O primeiro - talvez o menos provável, apesar das repetidas declarações do presidente norte-americano de que seria uma opção “na mesa” - é a intervenção militar. Essa avaliação não pretende negar a enorme capacidade material de Washington para alcançar tal objetivo, em quantidade e qualidade, e ainda contando com instalações já existentes na ilha para apoiar qualquer operação; seria um avanço avassalador, e isso é indiscutível. A questão central, em qualquer cálculo de custo-benefício, é outra: se Washington estaria disposto, ao fim, a destruir a OTAN por completo. Mesmo levando em conta divergências com diversos parceiros da Aliança, isso não parece viável - nem desejável.

Além disso, o que diria o Congresso dos EUA num momento em que já demonstrou sinais de oposição às políticas do Executivo após a conclusão das operações na Venezuela que resultaram na captura de Maduro? Ainda que se possa argumentar que Trump pouco se importaria com esse entrave, a lei norte-americana o obriga a obter aprovação do Legislativo para qualquer ocupação prolongada por mais de 60 dias. Ignorar isso significaria, também, abrir um conflito interno dentro dos Estados Unidos - e, ao que tudo indica, não é algo que se resolva com armas.

Já a compra do território surgiria como uma alternativa mais amigável no plano político e económico, mesmo com cofres norte-americanos pressionados por elevados níveis de dívida - e sem que exista, até aqui, uma estimativa de quanto isso custaria. Os obstáculos, porém, são claros: a Dinamarca já declarou que não pretende avançar com um acordo desse tipo, e tampouco haveria apoio dos demais líderes do Velho Continente.

Além disso, qualquer tratado com esse conteúdo teria de ser aprovado pelos habitantes locais, cujo governo, como apontado, dispõe de autonomia com aval de Copenhague. Esse ponto também não é animador para Trump: pesquisas de 2025 indicam rejeição que chega a 85% entre a população, com poucas opções de reversão, e com a independência plena como um dos temas mais presentes nos debates groenlandeses.

Uma terceira via, sugerida por analistas internacionais e que considero digna de discussão, seria uma manobra diplomática arriscada por parte dos EUA para pressionar a Europa como um todo. Tarifas seriam um dos instrumentos possíveis, mas também a ajuda militar que o país oferece à Ucrânia para resistir à invasão russa, assim como o guarda-chuva de proteção que ainda é visto como a melhor opção do continente para evitar ser arrastado a conflitos semelhantes. Seria, em essência, uma forma de chantagem - à qual, contudo, o presidente de origem nova-iorquina não parece se furtar, aparentemente consciente de sua posição dominante.

E que espaço sobra para os líderes europeus?

Com o passar do tempo e a sequência de declarações de Trump, as reações das principais lideranças europeias têm variado: há quem defenda uma postura mais dura de oposição e há quem busque uma posição mais relaxada. No primeiro grupo, podem ser identificados os líderes de Alemanha e França, que já acusaram os Estados Unidos de tentar “romper com as regras internacionais” e estabelecer uma ordem em que prevalecem os mais fortes como um “antro de ladrões”.

Na Itália, por outro lado, a primeira-ministra Giorgia Meloni tentou baixar a temperatura ao afirmar: “Falemos de geopolítica: busco as luzes mais do que as sombras da relação italiana com os parceiros europeus e atlânticos (…) Acho que a mensagem dos Estados Unidos é que não aceitará qualquer interferência de terceiros na zona, e esse é um assunto que também nos diz respeito.” Ela acrescentou depois que seu país já vinha trabalhando em uma estratégia para responder às preocupações de segurança norte-americanas, tratando a questão como prioridade a ser debatida em fóruns da OTAN.

O fato é que, apostando tanto em um afastamento de Washington quanto em uma trajetória de maior cooperação, a Europa se vê diante da necessidade de ampliar as próprias capacidades militares - e, no processo, favorecer os seus atores industriais locais para ganhar margem de manobra. Nesse sentido, o plano ReArmar a Europa, anunciado no ano passado, é um bom primeiro passo, mas precisa ser sustentado ao longo do tempo e, idealmente, ampliado para se tornar crível. Só o tempo dirá se isso é uma possibilidade real ou apenas um sonho utópico.

Imagens usadas apenas a título ilustrativo


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