Uma análise do Morgan Stanley estima que mais de 200 000 vagas podem ser eliminadas no setor bancário europeu até 2030 - um volume expressivo, equivalente a quase 10% dos 2,12 milhões de trabalhadores do segmento no continente. O fator por trás dessa possível guinada seria a inteligência artificial, vista por executivos como um novo caminho para elevar a rentabilidade.
O estudo, divulgado pelo Morgan Stanley e repercutido pelo Financial Times, coloca 35 grandes bancos europeus no radar. A avaliação é que a IA teria potencial para extinguir 1 emprego em cada 10 no setor, totalizando 200 000 postos. As áreas mais atingidas tendem a ser os “serviços centrais”: middle-office, back-office, conformidade e gestão de riscos. Embora pouco visíveis para o público, essas equipes sustentam a rotina operacional das instituições.
Os 200 000 empregos na mira da automação
O traço comum dessas funções é a predominância de atividades repetitivas, altamente padronizadas, com grande uso de dados estruturados em larga escala - justamente o tipo de trabalho em que algoritmos costumam se destacar.
“L’IA a déjà supprimé des emplois dans la partie qui n’est pas face aux clients”, admite Niccolò Ubertalli, presidente do CCF (ex-HSBC France), em entrevista à BFM Business. Ele cita o crédito imobiliário como exemplo: hoje a aprovação ocorre em um dia, quando antes eram necessárias várias semanas de processamento - uma velocidade impressionante, obtida com redução de vagas.
A pressão dos investidores como acelerador
Por trás da corrida por automação está, mais uma vez, a busca por lucro. As instituições europeias vêm ficando atrás das concorrentes dos Estados Unidos em termos de rentabilidade. França e Alemanha aparecem entre os mercados mais expostos, em parte porque seus bancos carregam índices de custo elevados. Diante disso, investidores cobram uma melhora rápida do indicador custo/receita, considerado central para medir o desempenho do setor. Nesse cenário, a inteligência artificial passa a ser vendida como a solução.
“De nombreuses banques évoquent des gains d’efficacité pouvant atteindre 30% grâce à l’IA”, apontam analistas do Morgan Stanley.
Reestruturações já em curso
Os ajustes, na prática, já começaram. O banco holandês ABN Amro informou que pretende cortar quase 20% do quadro de funcionários até 2028. Na França, o diretor-geral do Société Générale, Slawomir Krupa, avisou que “rien n’était sacré” em sua ofensiva de redução de custos - uma declaração que evidencia o grau de disposição das lideranças para enxugar equipes.
Ceticismo e possível virada em 2026
Ainda assim, nem todos os especialistas compartilham do mesmo otimismo sobre os benefícios imediatos da IA. “Les banques ne rapportent pas encore d’amélioration en termes d’efficacité”, pondera Jason Napier, responsável pela pesquisa de bancos europeus no UBS. Para ele, “ces outils puissants n’ont pas encore été pleinement déployés”. Mesmo assim, o UBS considera que 2026 pode marcar um ponto de inflexão, caso a IA comprove impacto real na produtividade. O banco suíço vem tratando o tema como prioridade e enviou recentemente 250 de seus principais executivos para um encontro dedicado à inteligência artificial em Oxford.
Perder os fundamentos
Há também quem alerte para os riscos de uma implementação apressada. Conor Hillery, co-CEO do JPMorgan Chase para a Europa, faz um aviso direto: “Dans la course à l’IA, nous devons éviter de perdre de vue les fondamentaux.” Ele reforça que é essencial continuar treinando jovens contratados nos princípios do trabalho bancário, para evitar formar profissionais que não entendam os mecanismos que deverão supervisionar.
A preocupação, aliás, não se limita à Europa. Nos Estados Unidos, o Goldman Sachs comunicou aos funcionários, já em outubro, que haveria cortes e congelamento de contratações até o fim de 2025, como parte de um programa chamado “OneGS 3.0”, voltado à integração de clientes e ao reporting regulatório. Em outra frente, a Bloomberg revelou que a OpenAI iniciou um projeto batizado de “Mercury”, com o objetivo de criar uma IA capaz de substituir analistas juniores em tarefas de modelagem financeira. Mais de 100 ex-banqueiros teriam sido contratados para essa iniciativa.
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