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Por que a Grande Pirâmide de Quéops, em Gizé, resiste a sismos há 4.600 anos

Homem usa equipamento eletrônico próximo às pirâmides do Egito sob céu claro.

Quando a gente pensa em monumentos antigos, o normal é imaginar paredes rachadas, pedras caindo e o tempo vencendo aos poucos. Só que, em Gizé, há uma exceção teimosa: a Grande Pirâmide de Quéops (Khufu) segue de pé depois de 4.600 anos, mesmo enquanto muito do mundo egípcio antigo ao redor se desfez.

Ela atravessou grandes terremotos e ainda perdeu, com o passar dos séculos, as famosas pedras de revestimento branco polido - e, ainda assim, o “corpo” principal continua firme. Os blocos de granito e calcário permanecem encaixados e estáveis, quase como se o gigante de pedra ainda estivesse saindo da fase de obra, e não se desgastando lentamente.

Arqueólogos ainda tentam entender todo o conjunto de soluções de engenharia que fez a Grande Pirâmide virar a única sobrevivente das Sete Maravilhas do Mundo Antigo.

Uma nova pista sobre o projeto pode acrescentar mais um ponto a favor da engenharia egípcia.

Segundo pesquisas recentes, várias características da estrutura podem torná-la surpreendentemente resistente a terremotos - mesmo que isso não tenha sido planejado. Entre esses “reforços” estariam as câmaras vazias de “alívio” (relieving chambers) logo acima da câmara funerária do faraó Quéops.

Construir a Grande Pirâmide foi uma tarefa monumental: ela é feita de cerca de 2,3 milhões de blocos de pedra, somando por volta de 6 milhões de toneladas métricas, com parte do material transportada por centenas de quilômetros até o canteiro de obras.

Depois, esses blocos foram posicionados e ajustados com cuidado para formar uma estrutura quase toda maciça, com cerca de 147 metros de altura, escondendo no interior apenas algumas poucas câmaras ocas.

Por ser majoritariamente sólida, a pirâmide é extremamente robusta: o peso fica concentrado mais perto do solo e se distribui pela base. Só que isso, por si só, não a tornaria imune aos danos de sismos ou ao desgaste do tempo.

Várias pirâmides ruíram, ao menos em parte. A estrutura externa da Pirâmide de Meidum, por exemplo, colapsou de forma dramática ainda na Antiguidade. Já as pirâmides de Userkaf, Sahure e Unas hoje lembram montes ásperos de entulho.

Há também evidências na Mesoamérica de que pirâmides - feitas com pedra vulnerável às tensões de cisalhamento geradas por terremotos - podem se partir com o sacolejo do terreno.

O Egito não é especialmente propenso a terremotos, mas pelo menos dois grandes eventos foram registrados num raio de 80 quilômetros da Grande Pirâmide.

Em 1847, um terremoto com magnitude estimada de 6,8 atingiu a região. Em 1992, um sismo de magnitude 5,8 foi registrado e soltou várias pedras de revestimento da parte superior da pirâmide de Gizé.

Por ser a maior pirâmide ainda em pé e uma das mais antigas, a Grande Pirâmide levou pesquisadores a uma pergunta direta: por que essa estrutura enorme e antiquíssima sobreviveu onde outras falharam?

Para investigar, uma equipe liderada pelo sismólogo Asem Salama, do National Research Institute of Astronomy and Geophysics (Egito), instalou sensores de vibração dentro e ao redor da pirâmide para entender como ela “ressoa” diante dos movimentos do ambiente.

Eles posicionaram 37 acelerômetros portáteis em vários pontos: na Câmara do Rei e na Câmara da Rainha, nas câmaras de alívio empilhadas verticalmente acima da Câmara do Rei, em passagens e túneis, nas pedras externas e no solo ao redor da pirâmide.

Esses sensores captam vibrações ambientais minúsculas, vindas de fontes já comuns na área - tráfego distante, vento, energia de ondas oceânicas se propagando pela Terra e microtremores praticamente imperceptíveis que percorrem a crosta o tempo todo.

No solo ao redor da pirâmide, essas fontes se combinavam para formar uma frequência de fundo consistente, por volta de 0,6 hertz (Hz).

Já na maior parte dos pontos dentro da pirâmide, a frequência ficou em torno de 2,0 a 2,6 Hz.

Essa diferença entre a frequência vibracional do solo e a da própria pirâmide pode ser parte da explicação de por que os terremotos causaram tão pouco estrago.

Como elas não “vibram juntas” na mesma frequência, a energia sísmica pode ser transferida de forma menos eficiente do terreno para a estrutura, o que ajuda a evitar o tipo de amplificação por ressonância que pode danificar prédios severamente.

Mas, embora a vibração tenha sido em geral consistente por toda a pirâmide - com a amplificação aumentando conforme a altura - houve uma exceção clara: as câmaras de alívio.

Normalmente, elas são interpretadas como uma forma de reduzir a carga pressionando a Câmara do Rei. Nessas câmaras, a amplificação da vibração caiu de maneira acentuada - o que sugere que elas também redistribuem tensões e interrompem a propagação das vibrações.

Mesmo que o objetivo original fosse suportar carga, o resultado indica que esses vazios podem ter ajudado, sem querer, a “blindar” a pirâmide contra terremotos.

A pirâmide - baixa, pesada e sólida - se comporta de um jeito bem diferente de como os edifícios são projetados para resistir a sismos hoje; as estratégias modernas, em geral, giram em torno de flexibilidade.

Os pesquisadores fazem questão de dizer que qualquer sugestão de que a resistência a terremotos tenha sido uma intenção deliberada no projeto ainda é pura especulação, embora eles pareçam interessados em buscar indícios nesse sentido.

“Essas descobertas apresentam evidências quantitativas convincentes de que os arquitetos do Egito Antigo possuíam profundo entendimento geotécnico, otimizando o design da estrutura e a caracterização do local para assegurar estabilidade em escala milenar contra riscos sísmicos”, escreve a equipe no artigo.

Em trabalhos futuros, o grupo planeja repetir algumas medições em locais-chave que “apresentaram pequenas anomalias”, confiantes de que os resultados “confirmarão a Pirâmide de Quéops como um milagre arquitetônico e um testemunho de princípios antigos de engenharia sísmica relevantes para a conservação moderna do patrimônio geológico”.

Os achados foram publicados na Scientific Reports.

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