A última vez que tentei passar uma semana com um carro elétrico deste segmento, a experiência foi frustrante. A ansiedade com a autonomia me acompanhou o tempo todo e, pior do que isso, aprendi do jeito mais difícil que não dá para contar, de forma alguma, com a disponibilidade dos pontos públicos de recarga da Mobi-e.
Dois anos depois, repetindo a mesma proposta - usar um elétrico do mesmo jeito que eu uso um carro com motor a combustão - o resultado não poderia ter sido mais diferente. Os elétricos ainda têm limitações, mas com a evolução das baterias essas barreiras vêm diminuindo bastante, como fica claro ao longo deste texto.
Kia e-Soul: números que mudam o jogo
Desta vez, o modelo do teste foi o novo Kia e-Soul, que chega ao mercado nacional com dados bem interessantes: bateria de 64 kWh, autonomia de até 452 km (ciclo WLTP) e um motor elétrico com 150 kW de potência (204 cv).
A esses números, somam-se os consumos declarados de 15,7 kWh/100 km no ciclo combinado e 10,9 kWh/100 km no ciclo urbano. Em outras palavras, é um modelo que combina muito bem com a cidade - e não apenas com ela.
O que pode limitar um volume de vendas mais expressivo é o preço de 49 149 euros - além de algumas restrições na capacidade de produção da fábrica sul-coreana. Ainda assim, como veremos mais à frente, argumentos é o que não faltam.
Vantagens para lá da máquina elétrica
Quando um carro encosta nos 50 000 euros, a expectativa é que a qualidade geral acompanhe a proposta tecnológica. Nesse ponto, o Kia e-Soul entregou mais do que eu imaginava.
Em materiais e montagem, o Kia e-Soul fica alguns degraus acima do Nissan Leaf (que custa menos, mas também oferece menos autonomia) e não fica acanhado diante de comparações com o Tesla Model 3 - que, ao menos na teoria, está em um segmento acima.
A sensação de robustez em todas as superfícies, junto da escolha cuidadosa de materiais, passa uma impressão de qualidade bem elevada. O silêncio a bordo também convence - não só por não haver um motor a combustão, mas justamente porque isso expõe qualquer ruído secundário. Sem o barulho do motor para “esconder” vibrações e rangidos, a montagem e o isolamento precisam ser ainda mais caprichados. E a Kia acertou.
Conforto e dinâmica: onde o Kia e-Soul se destaca (e onde limita)
O conforto merece elogios. Considerando 1695 kg de peso e uma carroceria crossover relativamente alta (1600 mm), seria natural esperar uma suspensão mais firme para segurar a carroceria em curvas. Ainda assim, o Kia e-Soul conseguiu controlar essa massa sem sacrificar o conforto.
Já do ponto de vista dinâmico, a maior restrição aparece por causa dos pneus de baixa resistência ao rolamento: eles ajudam a melhorar a autonomia do Kia e-Soul, mas sofrem para lidar com o torque do motor elétrico - algo que fica ainda mais evidente em piso molhado.
Uma semana com um Kia e-Soul
Com a apresentação feita, dá para falar do uso real. Na minha semana com o carro, foram duas viagens Lisboa–Vendas Novas, quatro idas à margem sul e muitos quilômetros diários em ambiente urbano. Com uma autonomia desse nível (452 km), já dá para encarar deslocamentos mais longos sem grandes preocupações com a carga.
"Carreguei as baterias apenas uma vez, por precaução, a meio da semana."
Essa autonomia traz duas vantagens claras. A primeira é ampliar o alcance das viagens. A segunda é permitir um ritmo mais livre. Se antes eu não podia passar de 110 km/h (sob pena de não ter bateria para voltar), agora dá para ir e voltar no ritmo que fizer sentido - às vezes, até sem perceber, acima do limite legal.
É assim que eu gosto de usar um carro, sem concessões. Fazer uma viagem inteira pensando que preciso ir devagar só para conseguir retornar não funciona para mim. Finalmente, os elétricos estão começando a permitir esse tipo de uso.
Equipamentos e tecnologia a bordo
Além disso, há alguns “mimos” que deixam os deslocamentos mais agradáveis. Os bancos dianteiros aquecidos oferecem um bom equilíbrio de conforto, e ainda há um volante também aquecido.
Para completar, dá para contar com o sistema de som Harman / Kardon. E, junto do novo sistema de infoentretenimento da Kia com conexão à internet - com capacidade de receber atualizações remotas -, o conjunto faz ótima companhia para quem vai a bordo.
Esse é mais um modelo a reforçar que os carros elétricos já são uma alternativa real aos motores a combustão: o raio de uso deixou de ser limitado à cidade e aos arredores.
No lado econômico, porém, ainda é um tema que exige conta na ponta do lápis. Afinal, ao custo mais alto de compra - ou da mensalidade, no caso de renting ou solução semelhante - é preciso descontar os gastos menores de uso, como manutenção e “combustível”, por exemplo.
Mas essa conta vai ter de ser feita por vocês.
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